história

a história do polvo


Breve história da captura do polvo em Santa Luzia

 

"João Batista Silva Lopes, um afamado escritor algarvio natural de Lagos, na sua “Corografia do Reino do Algarve”, a prepósito da comunidade piscatória de Santa Luzia do Concelho de Tavira, que visitou em 1837, anotou o seguinte: “… a um quarto de légua abaixo da cidade, fica a povoação de Stª Luzia, composta por 40 a 50 cabanas de junco, cujos pobres moradores se empregam na pesca com pequenas lanchas, e no apanho da morraça, que vão vender à cidade”.

Daqui se depreende que a apanha do polvo ainda não era o principal objetivo dos marítimos locais, dado que se dedicavam à pesca da “arte de Xávega” do “anzol” ou da “sacada”, em pequenas lanchas, canoas e saveiros, calcorreando a costa Tavirense, entre as Praias da Terra Estreita e do Barril, onde se situavam os melhores pesqueiros, “varando” os barcos nos areais e transportando o peixe em pequenos botes para a lota, essencialmente o carapau, a cavala e a sardinha, dada a inexistência da barra artificial que permitisse a passagem dos barcos para a ria.

Mas também a própria ria que banha longitudinalmente, toda a atual Vila de Santa Luzia, há alguns anos a esta parte, pomposamente chamada de “Ria Formosa”, sempre foi bastante fértil, dela retirando o sustento os “mariscadores”, mas também todos aqueles que se dedicavam à apanha de chocos e polvos, usando latas e outros objetos com espaço suficiente, onde os molúsculos procuravam refugio.

Só em 1927, com a abertura da “Barra artificial de Tavira”, um pescador de nome Manuel do Nascimento Menau, já experiente em apanhar polvo na ria, pegou nos seus apetrechos de pesca, compostos também por alguns alcatruzes de barro, normalmente usados nos engenhos da noras para tirar água, e os levou para lançar fora da barra de Tavira, em mar alto.

O seu instinto foi compensado a tal ponto, que esta atividade se tornou o principal modo de vida, durante muitos anos, das gentes marítimas, predominando ainda hoje como a única atividade piscatória na Vila de Santa Luzia.

Nos anos 80 do século passado, alguns jornais, a prepósito de reportagens realizadas sobre o tema, começaram por apelidar esta localidade, como a “Capital do Polvo”, título que poderia e deveria ser mais intensamente explorado para promoção da Vila.

Em 2005, eram cerca de quatro dezenas as embarcações que se dedicam exclusivamente à pesca do polvo, cujas transações na lota de Santa Luzia, atingiram as 728 toneladas de captura o que representou 22 % do total da pesca do polvo no Algarve.

Em 2015, o número de embarcações não diminuiu e, embora o polvo tenha vindo a escassear, devido talvez ao excesso de captura, já que atualmente não se utilizam só os alcatruzes, mas também os “covos” com isco, mesmo assim, antes de finalizar o presente ano, já se atingiram as 250 toneladas de polvo vendido, na lota de Santa Luzia."  

Rui Salvé-Rainha